21 de ago de 2009

Doutrina e Vida Cristã


Há poucos dias fui convidado para falar num Congresso sobre Lei e Graça na cidade de Santarém-PA. O Pastor Leonardo, querido amigo, combinou comigo que ele falaria sobre Graça no Antigo Testamento e eu sobre Lei no Novo Testamento. Foi aí que resolvi seguir o Sermão do Monte para esse fim.

Devo confessar que esse retorno ao Sermão de Jesus foi assustador. No final, as multidões estavam maravilhadas da sua doutrina (Mateus 7:28), mas quando lemos as palavras de Jesus, vemos a absoluta praticidade dessa doutrina.

Falando aos seus discípulos, havia uma imensa multidão que o seguia para ouvir suas palavras por pura curiosidade; afinal, ele ficou famoso por fazer coisas impressionantes como curas, milagres e exorcismos (Mateus 4:23-25). Jesus, então, apresenta sua proposta paradoxal de felicidade. As pessoas em todas as épocas, inclusive em nossa própria geração, imaginam que ser feliz é ser rico, sorridente, ter fama, fartura e ser cheio dos prazeres desse mundo; mas, Jesus propõe o contrário: bem-aventurado é o humilde de espírito, o que chora, o manso, o que tem fome e sede justiça, etc. (Mateus 5:3-9).

O humilde de Espírito (Mt. 5:3) é aquele que reconhece seu estado de pobreza espiritual e, por reconhecer isso, chora (Mt. 5:4) o seu pecado e sua miséria diante de Deus. Isso o constrange a viver de forma mansa (Mt. 5:5) pois ele aprende que todos nós precisamos da mansidão daquele que foi como ovelha muda perante os seus tosquiadores por nós. De forma brilhante, Jesus junta a fome e sede de justiça (Mt. 5:6) com o fato de ser misericordioso (Mt. 5:7) pois os conceitos que podem parecer antagônicos, mas a Justiça e a Misericórdia são centrais na cruz, onde Jesus nos ensina o que é ser um verdadeiro pacificador (Mt. 5:9), pois ele trouxe reconciliação nossa com o Pai.

Mas o ponto é que quem vive esses conceitos, torna-se desagradável para o mundo, por isso mesmo que seja perseguido (Mt. 5:10), pois por causa de Jesus mentindo, dirão todo mal contra o crente, ele deve se alegrar e exultar (Mt. 5:11,12).

Ainda que algum alento possa vir pelo fato de ser chamado de sal da terra e luz do mundo (Mt. 5:13-16), Jesus expõe a lei de forma contundente, pois veio cumprir e não revogar, e essa lei seria interpretada por ele de forma correta e bem mais dura do que a apresentada pelos escribas e fariseus (Mt. 5:17-20).

Dessa forma, ele mostra que qualquer pessoa que tem ódio ou simplesmente usa a sua língua para falar mal de outra pessoa (especialmente um irmão em Cristo) merece o inferno de fogo, pois quebra o mandamento: não matarás (Mt. 5:21-26).

Mostra que também merece o inferno e para lá irá quem não se controla sexualmente, mas olha para as pessoas com intenção impura e como remédio, o radicalismo de arrancar os olhos ou as mãos se esses fazem o homem tropeçar. Apontando o dedo para a consciência das pessoas, ele enquadra a humanidade toda no sétimo mandamento: não adulterarás (Mt. 5:27-32).

Nos ensina ainda que somos mentirosos, pois nossa palavra precisa ser absolutamente incontestável: sim, sim, não, não (Mt. 5:33-37); que devemos amar de forma incondicional os nossos inimigos e nem sequer pensar em vingança (Mt. 5:38-48).

Esses preceitos são muito difíceis de ser vividos, mas são necessários se quisermos viver segundo o padrão de Jesus. O problema, entretanto, é que ainda que façamos todas essas coisas pelas motivações erradas (a única correta seria a glória de Deus); nada passará de trapos de imundícies diante de Deus, pois tudo o que o homem faz é pecado à parte de Cristo.

Veja que o padrão fica ainda mais difícil. O que importa é mais que simplesmente viver de forma pura, mas fazê-lo pela razão correta: a glória de Deus. Há quem faça o “bem” por vários motivos: ser salvo ou receber bênçãos de Deus ou ainda com o fim de ser visto pelos homens, pois é muito difícil lidar com a falta de reconhecimento; mas é exatamente essa a proposta de Cristo:
Primeiro, nada deve ser feito por reconhecimento (Mt. 6:1), nem mesmo as coisas boas, pois mesmo essas coisas se tornam nulas diante de Deus. Fazer boas obras é excelente, mas quando se recebe louros humanos delas, já se teve a recompensa e Deus não se importa com isso (Mt. 6:2-4), a mesma coisa em relação a oração e jejum (Mt. 6:5-18): existe a tendência nas pessoas de quererem parecer espirituais, mas aqui Jesus ensina que ser espiritual é viver radicalmente combatendo o pecado e fazendo o bem de forma reservada para que apenas Deus receba a glória.
Além de toda essa carga, Jesus ensina que os que seriam perseguidos por viver daquela forma, deveriam ainda ter uma confiança absoluta nele e não se preocupar sequer com as coisas básicas (como alimento e vestuário), muito menos com qualquer outra coisa. Essa lição de contentamento (Mt. 6:19-34) parece colocar muitos cristãos de hoje no banco dos réus por não buscar em primeiro lugar o Reino de Deus, mas em preocupar-se com as suas coisas pessoais.

Finalmente, Jesus ensina aos homens que eles não devem julgar os outros (ou se julgar pelos outros), mas devem julgar a si mesmos por esses padrões aqui ensinados – isso os colocaria em humilde atitude de oração diante de Deus que está pronto para ouvir o seu povo (Mt. 7:1-12).

Claro que esse caminho não é fácil, mas é o caminho necessário para o crente. Não apenas a porta é estreita (Mt. 7:13), mas é apertado o caminho que conduz para a vida (Mt. 7:14). Essa descrição do caminho estreito e largo nesses versos é o que realmente assusta, pois a grande maioria dos ‘profetas’ de hoje em dia não falam essas coisas. Seriam esses os que precisamos ter cuidado (Mt. 7:15-19)?

O fato é que essa mensagem precisa urgentemente ser pregada para que o imenso número de pessoas que acham que são crentes, mas que, na verdade, estão indo para o inferno. Elas precisam ser amadas, pois os falsos mestres apenas engordam seus bolsos e sua fama, mas ensinam que Deus aceita as pessoas do jeito que elas são. Não lhes chamam à mudança de vida e de caráter, mas elas precisam ouvir que nem todo o que diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de Deus (Mt. 7:21).

A verdade é que as pessoas estão enganadas, e se continuarem a viver o cristianismo sem fruto, serão enganadas até a beira da porta, mas não passarão por ela; e ainda que argumentem: Senhor, em teu nome profetizamos, curamos, expelimos demônios, ouvirão explicitamente de Jesus: Nunca vos conheci, apartai-vos de mim os que praticais iniqüidade (Mt. 7:22,23).

Apesar de duro e difícil, apertado e estreito, esse é o caminho proposto para que possamos saber se somos filhos de Deus. Para que não fique dúvida nenhuma nos ouvintes, Jesus mais uma vez os conclama a que pratiquem (e não apenas ouçam) as suas palavras. Os que praticarem, não ruirão, mas os que não praticarem perecerão em ruínas grandes e infernais (Mt. 7:24-27).

Como disse, foi assustador voltar ao Sermão do Monte, pois comparei as palavras de Jesus ao modelo proposto pelo Cristianismo dos nossos dias. A proposta de Cristo é de radicalismo contra o pecado e contra nós mesmos, e sei que esse discurso não encontra guarida em corações acostumados a bajulação; por isso, peço a cada leitor que volte ao Sermão do Monte e que pare de se comparar com qualquer outra pessoa (ou grupo) para definir sua vida cristã, mas que se compare com as palavras de Cristo para que a sua justiça, em muito, possa suplantar a dos escribas e fariseus.

Diante desse sermão, as multidões observaram maravilhadas a doutrina (Mt. 7:28) puramente prática de Jesus. Esse é o Princípio Regulador da Doutrina Reformada: Doutrina Bíblica baseando a Vida Cristã. Que os homens de nossa Igreja levem a sério as Palavras de Jesus e, portanto, saibam liderar com a autoridade de quem segue os passos do Mestre (Mt. 7:29).

Que o Senhor continue a nos ensinar,
Samuel Vitalino

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