30 de jul de 2009

Cinco Anos sem Papai

Parece ontem o dia em que recebi sua ligação – voz doce e serena – que decretava seu estado de saúde possivelmente irreversível. De um lado a irriquietude de um filho inconformado, mas que não encontrava do outro lado da linha além de gratidão a Deus pelos anos que viveu (havia milhares de quilômetros entre Olympia e Recife).

De um lado, medo e quase desespero ao perceber do outro lado da linha a tranqüilidade de coração que apenas Deus pode dar.

Essa foi a tensão da ligação que me fez voar (ainda que mergulhado no oceano amargo da minha dor). Quando cheguei em São Paulo ele havia sido sedado havia poucas horas. As últimas palavras que ouvi foi mesmo aquela corajosa e confiante oração de exaltação ao Criador, quando me disse: “Tive mais do que mereci nessa vida”.

Deus ainda me reservou um grande presente. Como que me ensinando na morte o tanto quanto o fez em vida, entrei com sua Rutinha para orar e ver pela última vez aquilo que vimos com tanta facilidade, ainda que sendo ele, em suas próprias palavras um matuto de Garanhuns. Falo de sua última lágrima, que descrevi nesse soneto abaixo:

Última Lágrima
“... E lhe enxugará do rosto toda lágrima

Aquela lágrima última que escorria
No seu rosto, qual prenúncio de Adeus
Sem palavras, sem olhar, mas eu sabia
Era a hora bendita de meu Deus!

O vimos partindo para casa
Que momento feliz – sim, sem igual
Quando o mundo nesse instante desespera
A saudade para nós é natural...

Uma tristeza temperada com esperança
Aprendemos desde o tempo de criança
Que morrer era lucro – no Senhor!

E aquela última lágrima que escorria
Sem palavras, sem olhar, mas eu sabia
Era o momento derradeiro de sua dor.

Hoje, cinco anos depois, aprendemos a viver sem ele. Seus ensinos ainda nos guiam, pois eram baseados na absoluta verdade da Escritura do Senhor. Sua confiança em passar pela morte também nos ensinou a olhar para essa vida com os olhos fitos na eternidade, onde sabemos que estaremos juntos e desfrutando do infinito por milênios sem fim.

Essa saudade nos serve, sim, para mostrar como os homens (por melhores que sejam) são passageiros; que a vida, por mais fascinante que possa parecer, é como o vapor que passa, pois apenas Deus é Eterno.

Foi um amigo seu que falando conosco disse uma frase que o descreveu como peregrino ao dizer de papai: “ele passou por aqui e não perdeu a viagem”. Nessa passagem, ele deixou saudades que também tentei descrever em poesia:

Ocaso de Saudade
“... As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão” (Drummond)

Lindo ocaso enebriante
Colorido brilhante e sedutor
Nobres raios dourando o horizonte
Culpam o homem perante o Criador!

Não parece o Sol em brasa viva?
Eis que agora queima em outra direção
Mas deixou sua chama no meu peito
Esquentando, em lembrança, o coração

Esse ocaso, esse fogo, essa lembrança
Faz que caiam lágrimas de criança
Que esqueceu, assim, de não crescer

E agora, descrescida a alegria
Esperando logo a luz de um novo dia
E aguardando mesmo a hora de morrer

Hoje, olhando para trás, podemos ver a mão de Deus o levando na hora certa para casa, nos deixando aqui, pois ainda tínhamos tanto para crescer. O que nos resta é voltar aos olhos para Deus e agradecer pelo grande homem que colocou em nossas vidas, por tantos ensinamentos que Deus usou a sua instrumentalidade para nos repassar.

Ele me ensinou a teologia prática de confiar em Deus em toda e qualquer situação, de tributar-lhe glória por todo e qualquer acontecimento e de lhe ser grato por toda e qualquer providência. Por isso, cinco anos depois, temos confiança de que Deus o levou na hora certa, glorificamos a Deus por tudo o que fez e agradecemos porque há esse tempo, aprendemos com sua morte sobre aquele que vive: Jesus.

No amor de Cristo,